o princípio: Clio


De uma maneira ou de outra, pelo caminho lento dos séculos trazidos em remotas tradições orais, ou pela aparente iluminação súbita de um sábio genial, ou pela soma de ambos, todos os povos, todas as culturas, incluíram nos seus quadros de pensamento a noção – a intuição, se quisermos – da dinâmica de forças opostas enquanto motor do universo, da imanência do conflito que atravessa o cerne da existência.

Da maneira mais velada e sintética, ou com uma urgente (e como tal sentida) atitude analítica, todas as épocas sentiram, pensaram, viveram esta dicotomia universal. Todas tentaram (tentam) encaixar esse conflito essencial entre todas as coisas, na sua visão do cosmos.

Viveram-na (como nós a vivemos) nos seus múltiplos desdobramentos, máscaras, modos, tempos e intensidades. A luz e as trevas, o bem e o mal, mas também a noite e o dia, o inverno e o verão, o caçador e a presa, o macho e a fêmea, o pai e o filho – e antes disso, o irmão bom e o irmão mau e ainda antes disso o pastor e o agricultor, o nómada e o sedentário, o oleiro e o caçador.

E o rasto da contradição universal perde-se na noite dos tempos, na infância do homem.

De outra maneira, de todas as visões do início do mundo, antes do surgimento e acção criadora do Deus ou do Demiurgo, está ausente o elemento contraditório. A realidade pré-existente é essencialmente unitária, embora naturalmente caótica. Não existem (ou não são distintos) ainda os elementos que, no mundo que conhecemos, criam dinâmicas de conflito / oposição. Existe apenas o caos unitário do universo ainda incriado, desorganizado – inútil? (e este seria todo um outro rumo de raciocínio...)

Assim, pelo verbo, pelo gesto, pelo sopro, pelo acto primordial (o primeiro acto) inauguram a luz onde apenas havia trevas, ou separam a terra das águas, organizam o universo, tornam distinto o que era confuso, individualizam os deuses, os seres, a natureza e, consequentemente, põem em marcha a dinâmica dos contrários. E tantas e tantas vezes, no início, surge sempre uma dupla de realidades antagónicas, o ar e a água (Shu e Tefnut em Heliópolis) o céu e a terra (Uranos e Gaia em Hesíodo ou Rangi e Papa entre os Maoris).

E toda a nossa intuição aponta neste sentido: o primeiro de todos os actos possíveis é sempre um gesto afirmativo, agressivo, de demarcação perante o outro e de afirmação do eu. É no sentido dessa mesma intuição (e estou consciente das dificuldades deste termo, mas não me lembro de nada melhor...) que concebemos, actualmente, o próprio nascimento do universo, como uma explosão - porventura a maior, mais poderosa e radical afirmação de que a matéria é capaz.

E é significativo que, muitas vezes, subsequentemente, como primeiro “acontecimento” no universo recém-criado, ocorra o combate, o conflito, o choque aberto. Assim, com Marduk e Tiammat, Zeus e Cronos, Adão e Eva (conflito, sim!). Cria-se o universo e, com o primeiro conflito, o primeiro choque, o primeiro antagonismo, surge, como disse, o primeiro acontecimento. Inaugura-se a história. E das nove noites de amor entre Zeus e a titã Mnemosine (a memória), nasceram as nove musas, das quais κλέω, a proclamadora, a distribuidora da fama, anunciadora dos feitos dos homens.


A propósito:
- Tratado de História das Religiões, ELIADE, Mircea
- Mito, Mundo e Monoteísmo, CARREIRA, J. Nunes
- Teogonia, HESÍODO
e wikipedia (claro!)

quadro de Johannes Vermeer.

2 comentários:

blavska disse...
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Tiago R. disse...
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