Jacob - lutar com deus

No sentido mais profundo, toda a crença é uma luta. A fé num deus (ou em deuses) é o ainda mais agudamente. Acreditar é já escolher um caminho e rejeitar outro. É abordar toda a angústia da condição humana.

Mas a fé, no que tem de mais íntimo, é a maior das lutas interiores. Ficamos divididos entre o visível e o invisível, entre o palpável e o que nos escapa por entre os dedos.

Na nossa perplexidade perante o conflito imanente a toda a existência, justamente onde julgávamos ir encontrar a paz, tropeçamos num novo problema. A própria crença é vivida problematicamente e é feita de angústias, de escolhas de rejeições, de luta permanente na nossa identidade múltipla.

É preciso lutar com o anjo. É preciso derrotá-lo. É preciso ver a face de deus e sobreviver, como aconteceu a Jacob (Gn 32, 23) para aceder ao seu nome verdadeiro, Israel. “Ver a face de deus” significa, de facto, ser capaz de abordar, dentro de si mesmo, o metafísico, o numinoso, o absolutamente outro, o transcendente, mas entendido de uma maneira muito mais radicalmente violenta e estranha. O outro sem nome: deus.

E trata-se em boa parte de uma luta do entendimento contra o entendimento. Como conciliar a necessidade de deus com a sua absoluta improbabilidade? Do ponto de vista lógico, deus pode ser necessário mas é absolutamente improvável, e a sua existência causa-nos muitos mais problemas do que aqueles que procurávamos resolver de início. Aliás, como a história prova, sobejamente.

É Cristo que diz (em Mt 10, 34) “Não pensem que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra.” Esta dolorosa luta dentro nós, esta escolha permanente e desumana: entre o impulso inato para o infinito e a necessidade causada pela nossa contingência, entre a nossa necessidade de vida e os nossos olhos que elevam para a meta-vida, imaginada, sentida, acreditada.


A propósito:
UNAMUNO, Miguel
– La Agonía del Cristianismo (absolutamente indispensável!)

Quadro de Rembrandt Harmenszoon van Rijn

1 comentário:

Susana disse...
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